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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

“A cultura do fogo na agricultura cearense precisa acabar”

O domínio da produção do fogo foi um marco no desenvolvimento da raça humana. Com o fogo, o homem primitivo passou a iluminar suas cavernas, caçar, cozinhar alimentos, se proteger de animais selvagens, se aquecer contra o frio e, com o passar do tempo, a “limpar terrenos”, produzindo espaços para plantar, construir suas moradas e facilitar a defesa contra invasões.

No Brasil, há quem defenda que os índios faziam uso correto do fogo enquanto o seu uso descontrolado tenha sido uma herança da colonização europeia, principalmente com o advento das monoculturas do algodão, cana de açúcar e café. Independente de como essa prática tenha se disseminado, se tornou praticamente uma obrigação de qualquer sertanejo nordestino: uma herança cultural passada de pai para filho.

Há quem seja tachado de preguiçoso ou desleixado, caso deixe a vegetação crescer em seu terreno, mesmo que não tenha a intenção de plantar. Essa realidade assombrosa pode ser comprovada no período de estiagem (agosto a dezembro), que é quando a vegetação está seca e propícia a ser queimada e assim preparar o terreno para a plantação, antes da quadra chuvosa chegar.

O que vemos no Ceará todos os anos nesse período é uma grande névoa de fumaça pairando no ar, provocada pelo uso generalizado do fogo. Na maioria das vezes, o fogo descontrolado se alastra e queima o pouco que sobrou de vegetação nativa.

Queimar um terreno pode até favorecer a renovação da vegetação em curtíssimo prazo, sendo uma ferramenta acessível e de baixo custo para limpeza e preparo do solo antes do plantio. Porém, já é amplamente conhecido que esta prática, em longo prazo, causa a degradação do solo, perda de nutrientes, prejuízos a biodiversidade animal e vegetal, exposição do solo à erosão, com uma série de prejuízos na dinâmica ecossistêmica e na qualidade do ar. Essa situação se agrava no semiárido cearense, que tem solos rasos e regeneração vegetal lenta devido aos longos períodos de estiagem.

Devido a esta cultura, o Ceará ostenta um dos maiores índices de desmatamento da Caatinga e já possui extensas áreas em processo avançado de desertificação. Não é preciso ser um profeta para prever um futuro terrível para o sertanejo do futuro, que herdará uma terra ainda mais pobre e cada vez mais seca. O aumento das temperaturas médias globais deverá agravar ainda mais uma crise ambiental sem precedentes. 

Portanto, está na hora de acabar com o esta prática rudimentar de queimadas, buscar outras alternativas através de sistemas de produção sustentáveis como: os sistemas agroflorestais, o sistema de plantio direto, a trituração da capoeira, a Integração lavoura-pecuária-floresta, e outras tecnologias que não utilizam fogo.

Estas práticas já existem, são baratas e comprovadamente melhores para o semiárido brasileiro, e isso não é nenhum segredo. O que precisamos é quebrar paradigmas, mudar certas culturas arcaicas e predatórias e, acima de tudo, criar políticas públicas para que estas mudanças sejam adotadas.

Enquanto ainda for permitida, uma queimada só deve ser feita com autorização, a chamada queima controlada, onde uma série de recomendações e técnicas devem ser aplicadas. Quem queimar um terreno sem essa autorização está cometendo um crime, de acordo com a Lei n° 9.605 /98 e a obtenção da autorização deve seguir a Instrução Normativa Estadual Nº 01/99.

Quem conhece o sertão está acostumado a ver fogo queimando indiscriminadamente e sabe que essas leis não funcionam na prática. Boa parte dos agricultores sequer sabe que é errado usar o fogo sem autorização, pois isso vem sendo feito e passado de geração para geração sem nenhuma implicação. É a única prática viável para o desenvolvimento da agricultura familiar que conhecem. Há quem saiba da necessidade de autorização, mas mesmo assim escolhe não ir atrás, alegando ser burocrático e completamente desnecessário, uma vez que não existe fiscalização e muito menos repreensão.

Na serra de Baturité está presente uma vegetação diferente da Caatinga, uma floresta úmida rara, com elementos de Mata Atlântica e Amazônica. Este tipo de ambiente representa apenas 3% de todo o Estado do Ceará, e está restrito a algumas serras, como a Maranguape, Aratanha, Serra Grande, as encostas da Floresta Nacional do Araripe, dentre outras. Dos 32 mil hectares de mata úmida existentes na serra de Baturité, estima-se que metade encontre-se desmatada e convertida em casas, condomínios e plantações, nos municípios de Guaramiranga, Pacoti, e com situação agravada em Mulungu, Baturité e Aratuba.

Para acentuar mais o problema, a população local tem costume de queimar lixo, quintais de casa e, anualmente, pôr fogo em áreas a serem cultivadas bananeiras, chuchu, milho e feijão, principalmente. Na maioria das vezes o fogo avança na mata nativa. Os resultados disso são percas acentuadas de área de floresta, fortes erosões e com isso uma série de implicações ambientais.

A serra de Baturité funciona como uma grande caixa-d’água e a vegetação nativa tem papel fundamental na recarga dos seus aquíferos. É um estratégico centro dispersor de drenagem, Onde estão as nascentes do Rio Pacoti, no platô da serra, que abastece o reservatório Gavião/Pacoti; a nascente do rio Aracoiaba, que abastece a bacia do rio Choró em sua vertente oriental úmida e; as nascentes dos riachos Siriema e Bom Jardim, que abastecem a sub-bacia do Canindé, integrante da bacia do Curú, na sua vertente ocidental. Trata-se de um dos mais importantes fornecedores de água que abastece cerca de 2,7 milhões de habitantes da Região Metropolitana de Fortaleza.

A garantia desta recarga hídrica se dá essencialmente pela presença das florestas da serra de Baturité. Quanto menos floresta, mais erosão, menos água no lençol freático. A mata úmida, junto com sua fauna associada, encontra-se cada vez mais estrangulada pelos desmatamentos, e o microclima afetado permite o avanço da Caatinga nesta serra. Com isso, cada vez mais o fornecimento de água dessa região deverá diminuir.

Estamos diante de mais um grande incêndio florestal nas encostas da serra de Baturité, que dizimou, de uma só vez, mais de 30 hectares de mata úmida (acima da cota 600m) em sua encosta oriental. Por ter tomado maiores proporções e mobilizado uma grande quantidade de brigadistas, teve repercussão e os responsáveis estão sendo incriminados. Porém, a grande maioria dos incêndios acontece sem que ninguém tome providências. Devido a forte declividade, muitas das áreas queimadas em anos anteriores já perderam o seu solo ou viraram plantações de bananeiras, representando riscos de desabamentos, já que suas raízes não conseguem segurar o solo com grandes quantidades de água.

BIODIVERSIDADE AMEAÇADA

Por se tratar de um ambiente restrito e dependente de condições climáticas especiais, a serra de Baturité tornou-se refúgio de uma flora e fauna rica e única. Muitas espécies raras e ameaçadas estão presentes na região, e estas não são capazes de se dispersar e viver na Caatinga.

O quandú-de-baturité é um exemplo de mamífero da região muito raro e ameaçado pelo fogo. Esta animal dotado de espinhos para se defender, vive em árvores e só é encontrado no Ceará, em pouquíssimas serras úmidas do Estado, uma espécie recém descoberta pela ciência. É um animal tímido e pacato, se alimenta de frutas e sementes no alto das árvores e contribui bastante com a dispersão de sementes da mata.

O periquito cara-suja é uma espécie amaçada de extinção que costumava ocorrer em diversas serras do Nordeste, hoje só ocorre no Ceará, em 3 localidades isoladas, sendo a serra de Baturité sua área mais significativa. Além de diminuir seu habitat de ocorrência, o fogo também afeta sua reprodução, pois se utiliza os ocos de árvore. Quanto menos árvores, menor sua chance de sobrevivência.

Bromélia Guzmania sanguinea

Essa é uma das bromélia ameaçada de extinção (EN) da serra de Baturité. Segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA), essa espécie só ocorre aqui no Brasil em duas localidades: serra de Baturité e Maranguape e outras populações disjuntas somente na Costa Rica, Trinidad Tobago, Equador e Colômbia. Só ocorre na mata úmida e além de sofrer forte ameaçada pelo fogo, é retirada de seu habitat para ser usada como planta ornamental, tornando-a mais rara.

Cobra-da-terra-dos-brejos Atractus ronnie

Essa rara serpente cearense foi inicialmente descrita na serra de Baturité e recentemente descoberta em outras serras do Estado, como na Ibiapaba e na Chapada do Araripe. Trata-se de uma cobra não-venenosa ameaçada de extinção e de difícil visualização. Por ter habito de viver boa parte de seu tempo enterrada, tem pouca mobilidade para escapar de queimadas.

Estes são apenas alguns dos representantes da biodiversidade da serra de Baturité. Muitas outras espécies únicas dependem completamente deste local para sobreviver. Alguns já desapareceram, outras estão à beira da extinção local. Estas extinções são fortes evidências da nossa irresponsabilidade ambiental. E uso indiscriminado do fogo também atesta nossa ignorância e desprezo pela natureza. A cultura do fogo precisa acabar para o bem da natureza e da sociedade que depende dela. As soluções já existem.

*Fábio Paiva é biólogo da ONG Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis)

Fonte: Tribuna do Ceará
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