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sábado, 28 de julho de 2018

80 anos da morte de Lampião e Maria Bonita

Lampião sabia que estava sendo visto e gostava disso. Quando seu espólio pessoal foi resgatado naquela madrugada de 28 de julho de 1938, momentos depois da morte do bando pelas forças volantes do tenente João Bezerra, encontraram em seu bornal um exemplar do livro que levava seu nome, de autoria do escritor e médico sergipano Ranulfo Prata. Às margens das páginas, anotações do próprio Lampião sobre o texto que se propunha a narrar suas aventuras.



Outro escritor, Leonardo Mota, cearense de Pedra Branca, escreveu em 1930 que Lampião parecia “possuir a volúpia da espetaculosidade”. Espetaculosamente, viveria mais oito anos aprimorando essa volúpia, a ponto de se fazer filmar e fotografar em 35mm. Em uma dessas ocasiões, negociou com a Bayer do Brasil o uso de sua imagem: um comercial da Cafiaspirina, remédio para dor de cabeça, mostrava o cangaceiro distribuindo o medicamento para seu bando em frente a um cartaz com os dizeres “Se é Bayer, é bom”. Na reunião dos 24 quadros por segundo, Lampião se tornou garoto propaganda da farmacêutica alemã.

“Era o maior marqueteiro de si mesmo”, afirma em entrevista a O POVO o historiador Frederico Pernambucano de Mello, ex-superintendente do Instituto de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e autor de diversos livros sobre o cangaço, entre eles Estrelas de couro: a estética do cangaço e Guerreiros do Sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil. “Lampião era um homem que ultrapassava os limites do sertão e que tinha ligações com o universo urbano e com o litoral”, explica.


Fotografada por Benjamin Abrahão, uma das imagens mais famosas do cangaço mostra Maria Bonita sentada, acariciando os cães Ligeiro e Guarany, e Lampião ao seu lado, em pé, exibindo a revista Noite Ilustrada, que vinha encartada com o jornal carioca A Noite. Na capa do periódico, voltada para a câmera de Abrahão, a atriz norte-americana Ann Evers em trajes de banho. “Eles viviam como nômades, mas não eram ocultos e nem faziam questão de se esconder. Muito pelo contrário, queriam se mostrar. Tinha muito a ver com uma vaidade de querer viver uma vida melhor”, justifica em entrevista a O POVO Ângelo Osmiro Barreto, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço e autor de livros e artigos sobre o tema.

Se Abrahão foi responsável pelo registro imagético do cangaço, a rápida circulação dessas capturas só foi possível pelo interesse quase obsessivo da imprensa brasileira por qualquer coisa que tivesse ligação com o bando de Lampião. Jornais e revistas de todo o País pareciam sedentos por novidade sobre Virgolino, e até o New York Times noticiou os avanços do bando em diferentes ocasiões durante a década de 1930. O líder cangaceiro reunia em sua figura as contradições que matizavam o Nordeste – disputas por terras, violência no campo, diferenças raciais – e que acentuavam a impossibilidade da unidade nacional.

Embora criticasse a atuação violenta do bando, a imprensa não escondia seu fascínio pelo líder, que era retratado como um vulto de corpo fechado. E Lampião fazia questão de colaborar com repórteres e fotógrafos enviados pelos veículos, utilizando o que estivesse à disposição para a construção de seu próprio mito. “Era um vaidoso. Desde que recebeu a patente de capitão honorário das forças legais por ordem de Padre Cícero, passou a utilizar o título até a morte. Nunca o dispensou. Se transformou no capitão Virgolino Ferreira da Silva, vulgo Lampião”, aponta Pernambucano de Mello.

“Saber que seu nome e seus feitos apareciam no jornal certamente era um estímulo. Ele foi o primeiro bandido nacional a ser midiatizado, digamos assim, com fotos e histórias circulando na imprensa. E tinha muito gosto em ver essas matérias. A produção da imagem, com o chapéu, as roupas, as armas, parece ter sido cuidadosamente trabalhada”, acrescenta em entrevista a O POVO a historiadora Isabel Lustosa, autora de De olho em Lampião: violência e esperteza. O apuro das vestes do bando impressionava a imprensa e também ajudava a atrair novos membros para o grupo, em geral jovens pobres e iludidos pelos homens de anéis nos dedos e armas nas cartucheiras.

Lampião desenhava e executava suas peças: rabiscava os moldes em um papel pardo e depois os cobria com tecido em sua máquina Singer. A indumentária do bando, comparada em algumas ocasiões à dos samurais e cavaleiros medievais, ainda marcava a diferença entre aquele e os demais grupos de cangaceiros ou policiais. Alguns do símbolos ostentados pelo bando funcionavam também como uma espécie de conforto místico, uma blindagem contra a má sorte. “Todos armados de mosquetões, usando trajes bizarramente adornados, entram cantando suas canções de guerra, como se estivessem em plena e diabólica folia carnavalesca”, publicou o Diário de Notícias, de Salvador, em 1929, sobre o bando de cangaceiros.

“A despeito de ser um criminoso muito violento e sem escrúpulos humanitários, era um homem que tinha um requinte muito grande e um senso estético à flor da pele”, explica Pernambucano de Mello. O historiador chama atenção para as peculiaridades do chapéu que Lampião usava quando foi assassinado em 1938: “De couro de veado com estrelas de couro brancas e pretas estampadas nas abas dianteiras e traseiras, mais 70 peças de ouro costuradas e uma testeira de couro com cinco moedas de ouro com quatro centímetro de diâmetro. As moedas eram de ouro vermelho, do Brasil colonial, de 22 quilates”.

Por razões funcionais, estéticas e místicas, Lampião e seu grupo desenvolveram um visual particular que acabava por derrotar, também no nível simbólico, as autoridades oficiais de polícia. Tanto é assim que, em 1938, a violência do ato da decapitação do bando e o exagerado cuidado na composição da fotografia das cabeças separadas foram lidos como uma espécie de vingança metafórica: naquela cenografia da morte, o corpo, que reunia todas as riquezas daquele homem, foi deixado sem sepultura.

Mas as sucessivas camadas de revanche tiveram um último vencedor. O chapéu em meia-lua e decorado com uma estrela, ponto de concentração alegórica do glamour, da vaidade e da valentia do cangaço, tornou-se símbolo do Nordeste. “Transmite a ideia de um homem valente, de coragem, que luta contra as intempéries, que vivia uma vida difícil, nômade, sem teto. Isso chamou atenção, ficou na memória de nossa gente, que acabou se reconhecendo nessa figura”, explica Osmiro Barreto.

Pernambucano de Mello, que se prepara para lançar um novo livro sobre o tema, também associa mitologia e identidade. “Eu diria que Lampião e o cangaço, indissoluvelmente ligados, respondem pela formação da mais importante mitologia popular brasileira, que é uma mitologia baseada no épico e que foi objeto da ocupação das mais ilustres cabeças do país, como José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Jorge Amado”, explica ele, dando a entender que, oito décadas passadas, Lampião permanece mais vivo do que nunca.

Foto  de Lampião e Maria Bonita Reprodução - O Globo

Com informações do site badalo

Fonte: Opovo Online  
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