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terça-feira, 2 de julho de 2019

‘Matando aula’, escultor de Aurora se tornou Mestre da Cultura cearense

Com 1,60 m de altura, corpo franzino e a coluna encurvada pelos mais de 50 anos trabalhando na madeira, Francisco Gildamir de Sousa das Chagas, o popular artesão aurorense Gil Chagas, teve uma trajetória curiosa para aprender a esculpir. Foi “matando aula”, que surgiram suas primeira peças fabricadas na sombra de uma mangueira, a poucos metros de sua casa. A atividade o tornou, anos depois, luthier e, em fevereiro deste ano, foi nomeado Mestre da Cultura cearense. 
Inspirado no trabalho de seu avô, o marceneiro Pedro de Souza Chagas, que era conhecido em Aurora como Mestre Pedro, Gil trazia para seu “ateliê” ao ar livre a madeira que sobrava da fabricação de móveis. Cedro, jacarandá, cerejeira era algumas das utilizadas.

Porém, o que mais admirava era a criação de imagens. E nenhum era tão bom como o também aurorense Geraldo Simplício, o famoso Nêgo Simplício, que hoje mora em Nova Friburgo (RJ) e tem trabalho reconhecido em todo país. 

Diariamente, Gil deixava o café, a pé, na oficina de seu pai, o também marceneiro José de Souza Chagas. No trajeto, passava pelo ateliê de Simplício, na lateral de Igreja Matriz Senhor Menino Deus, e ficava olhando sua arte.

“Eu ficava na porta e não perguntava nada a ele. Eu não queria desconcentrá-lo”, lembra. Nessa época, já com vários pedaços de madeira, mudava o trajeto da escola para praticar debaixo de uma mangueira próxima a sua casa. “Eu saia como se fosse para a escola, mas ia esculpir”, confessa. 

As ferramentas para esculpir foram feitas pelo próprio garoto. As peças eram carrancas, crianças e imagem de Nossa Senhora. Todas elas ficavam escondidas dentro de uma pedra, coberta por folhas. “Quando estava perto de terminar a aula, pegava o mesmo caminho que era pra chegar em casa como quem vinha da escola”, narra.

A farsa foi descoberta quando o açude, vizinho a mangueira, sangrou e a água arrastou as esculturas. Um amigo de seu pai, conhecido como Pedro Cem, aproveitou a cheia para pescar e acabou encontrado as peças. “Eu já tava me arrumando para ‘ir para a escola’, quando Pedro bateu na porta, oferecendo peixe a meu pai”, lembra Gil.

“A pescaria foi boa?”, perguntou seu pai.

“Foi boa. Foi tão boa que deu até escultura”, respondeu Pedro, mostrando as peças feitas pelo pequeno Gil.

A surra que levou de sua mãe, Teresa de Sousa Chagas, foi inesquecível. Na escola, Gil também ficou de castigo por matar aula para esculpir. Passou uma hora de joelhos no milho. “Minha professora me levou em casa, mas deu conselho aos meus para que não atrapalhassem, que me deixassem à vontade. Mamãe e papai deixaram. Aí comecei a fazer pé, mão, tudo”, conta o escultor.

Mesmo criança, Gil começou a ganhar dinheiro fazendo ex-votos para as pessoas cumpriam promessas à Mártir Francisca, a santa popular de Aurora, que foi morta aos 17 anos pelo seu ex-noivo. “Eu me considero escultor e devo isso a Mártir Francisca. Comecei fazendo pé, mão, olho. Ela morreu em 1958, no ano que nasci. Pra você ver, nessa época já começou a obrar milagre”, acredita.

Com 12 anos, Mestre Gil só precisava dos pais para “dar a palavra por mim”, afirma. Já comprava suas próprias roupas, comida e ajudava em casa. Além disso, aprendeu a talhar e fabricar móveis. Em 1977, aos 19 anos, foi convidado para trabalhar no Crato numa grande movelaria para esculpir o trono de Dom Vicente de Araújo de Matos, bispo da Diocese local.

Depois de passar em um teste, ficou cinco meses no Crato, ganhou um bom dinheiro e partiu para Salvador (BA).  “Lá era onde estava os ‘cobras’ na arte plástica. O que eu queria estava lá”, afirma o escultor. Conseguiu um serviço em uma serraria entalhando portas e começou a se entrosar com outros artistas.

Com dois anos, retornou à Aurora e já não queria mais trabalhar com marcenaria. “A cidade era pequena e já tinha grande concorrência. Um querendo passar a pena no outro. Fui me afastando do ramo de móveis e fiquei só na talha e escultura. Rendia, porque vendia mais para fora. A maioria, peças sacras”, completa.

Apaixonado por música, o escultor tocava violão e já produzia alguns instrumentos. Mas a luteria só começou com a visita do professor e jornalista Gilmar de Carvalho, em 2004, que entrevistou sete escultores de Aurora para a publicação de um livro. Curioso, Gil já fazia mamulengos e brinquedos com movimentos. Tudo na madeira.

Após retornar a Aurora em 2008, para intensificar a pesquisa sobre rabecas, o professor percebeu, por acaso, que Gil Chagas produzia algumas peças parecidas com a voluta de um violino. “Por que você não tenta fazer uma rabeca?”, provocou.

O escultor tinha vontade de fazer, mas temia perder o material. Através de fotos com as medidas, começou o trabalho. “Eram muito bem–feitas. Ele tinha uma técnica para trabalhar a madeira que impressionava. Mas as rabecas que ele fazia tinham alguns problemas. Eram muito decorativas, mas precisavam de um burilamento”, recorda Gilmar.

Com indicação de Gilmar, procurou o luthier Antônio Gomes, o Mestre Totonho, de Mauriti. Ligou para ele num dia e no outro já estava em sua porta. Com as orientações, percebeu que o problema de sua rabeca estava no cavalete. “Teve lições de luteria que lhe abriram caminho para aperfeiçoar o que fazia de uma maneira promissora”, acredita o professor. Depois de corrigir, Gil Chagas foi buscar a afinação para a rabeca “dentro de casa”, com o Mestre Antônio Pinto, também luthier, de Aurora. “Ainda hoje uso sua afinação”, garante.  

Fonte:Diário Cariri/DN
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