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sábado, 21 de setembro de 2019

Alzheimer: lembranças afetivas resistem a fases iniciais da doença

É disso que a boca fala: das alegrias, dos amores, da juventude na Escola Normal Justiniano de Serpa, da chegada da única mulher entre os três filhos. Maria Avany Passos, 90, nem sequer lembra do motivo da dor nas costas que sente pela queda que levou há um dia - acha que foi "um abraço muito forte". Apesar da Doença de Alzheimer, dissolver a memória dia a dia, há três anos, as palavras da professora aposentada deixam fluir muito do que a mente e o coração ainda estão cheios: das vivências e lembranças de décadas atrás.

"Na Escola Normal, eu amava até as paredes. Vivia indo pra fora da classe, porque era danada, agitada, cheia de vida. Mas, no fim, os professores me chamavam de volta. Fui até oradora da turma!", orgulha-se, como se houvesse vivido tudo, ontem, mesmo. De tão importantes para construir a própria identidade, as recordações de Avany foram parar num livro - documento lançado por ela já após diagnosticada, e que eterniza tudo o que, em alguns anos, habitará na penumbra da memória.

"Ela cuidou do meu pai com Alzheimer por 14 anos, conhece muito todas as etapas da doença, mas não identifica nela mesma. Não sabe que tem. Percebemos que ela tava muito repetitiva e esquecida, depois que ele faleceu, mas o geriatra pediu um tempo, porque poderia ser efeito do luto. Seis meses depois, refizemos os exames e, por diagnóstico clínico, ele constatou que ela estava em estágio inicial", relata a filha de Avany, Ana Alzira Passos, 59, descrevendo ainda a rotina na qual mergulha a mãe na tentativa de retardar o avanço do Alzheimer.

Sentir

"Logo que foi diagnosticada, começamos a medicação e os estímulos. Ela tem personal trainer três vezes por semana, fonoaudióloga, massagista, e pra onde eu vou, levo ela, pra mantê-la ativa. O Alzheimer é um carro descendo uma ladeira. Se você for freando, ele demora mais a chegar. Mas não vai parar de descer", reconhece Alzira, filha "do meio" que carrega os traços e o amor incondicional da mãe.

"Quando ela nasceu, ave Maria, foi uma alegria muito grande! Eu sempre pensava em ter uma filha que seria minha companheira. Pronto, chegou a menina. Era uma boneca, era apaixonada? E ainda sou", sorri Avany, emanando um sentimento do qual os corações, dela e da filha, jamais vão esquecer.

"Eu chorava todo dia até o papai ter uns 12 anos de Alzheimer. Mas quando ele faleceu, não chorei. Porque a sensação que eu tinha era de que ele já tinha morrido antes, quando deixou de lembrar quem eu era e quem era ele mesmo. Com a mamãe, vejo a memória escapulindo pelos dedos. Mas independentemente de qualquer coisa, eu sempre vou saber quem ela é", sentencia Alzira, que levou a mãe para morar ao lado, parede-com-parede, para garantir que as lembranças, mesmo fluidas, sejam as melhores até o fim.

Lembrar

No Ceará, até agosto deste ano, 2.969 pacientes receberam medicamentos (comprimidos e adesivos sob a pele) para Alzheimer pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O número já supera 2018 inteiro, ano em que 2.860 pessoas recorreram aos fármacos para tratar a doença. Os dados são da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), que destaca a dificuldade em se obter uma estimativa do número de casos no território cearense.

A falta de estatística local é reforçada pelo presidente da Associação Brasileira de Alzheimer no Ceará (Abraz/CE), Phelipe Cabral. "A projeção da Organização Mundial da Saúde é que os casos tripliquem até 2050, e que tenhamos mais de 150 milhões no mundo. Estamos envelhecendo, no Brasil, e é preciso políticas de saúde para que as pessoas envelheçam bem e evitem demência", ressalta.

O especialista em saúde da pessoa idosa explica que lembrar de fatos antigos é característica comum a pacientes com Alzheimer. "Com a doença, todas as funções do corpo declinam, mas a mais crucial é a memória. O idoso não consegue estocar novas informações. Mas existe uma memória guardada a longo prazo que perdura e vem à tona até chegar à fase avançada da doença", descreve Phelipe.

Esquecer

A tão temida "fase avançada" tem chegado, dia a dia, para a aposentada Edite Sales de Oliveira, que hoje pouco recorda do que viveu nos 83 anos. Sorri ao dizer o nome de um dos filhos mais amados, "o José Ivan". Lembra da nora que vive em Rondônia, e até do padre-amigo-vizinho do município natal dela, Pacajus. Enche os olhos de lágrimas ao lembrar da relação conturbada com uma das filhas. Mas, em seguida, logo esquece. Medicamento algum ainda é capaz de sustentar as lembranças.

Entre as memórias embaçadas está, inclusive, o nome da filha com quem mora, Maria Iracema da Silva, 55 - que, há cinco anos, quando a mãe foi diagnosticada, nem sequer sabia o que Alzheimer significava. Foi descobrindo com a convivência sobre como lidar com a doença e com um amor que nem sabia existir.

"Quando ela lembra que eu sou a Iracema, diz que me ama, é um carinho. Às vezes, pensa que sou a irmã dela ou outra filha. Em outras, fica agressiva, mas não ofende nada, não tem mais forças pra empurrar, bater. Eu, meu marido, meus filhos e minha nora é que somos a família dela, que cuidamos dela. Ao vê-la assim, indo embora um pouco mais todo dia, me dói muito. Mas eu olho pra ela e só consigo amar ainda mais."

Fonte: Diário do Nordeste
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