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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Espetáculo que culminou em demissão de secretário reacende discussão sobre liberdade artística

A demissão do secretário de Cultura do Eusébio (25 Km de Fortaleza) jogou o município cearense no palco de inúmeras controvérsias. O titular da pasta, Léo Abreu, foi destituído do cargo via redes sociais pelo próprio prefeito da cidade, Acilon Gonçalves. O assunto ganhou corpo quando um vídeo com pouco mais de dois minutos foi vinculado na página oficial do mandatário na madrugada de domingo. O apoio da Secretaria à realização da 20ª Convenção Brasileira de Malabarismo e Circo foi o motivo da decisão.

Realizada entre os dias 12 e 18 de janeiro, a iniciativa de alcance nacional aconteceu, pela primeira vez, na região Nordeste. Durante a fala, Acilon denuncia que "deturpações graves" teriam ocorrido durante a Convenção. Sem identificar quais seriam estes acontecimentos, o gestor apenas explica que o evento "feriu a ética, os princípios religiosos e a moral". Entretanto, nos bastidores, o alvo principal da discórdia é o espetáculo "Erotic Circus Show", protagonizado pela trupe Verticarte Circus, de Rio Grande do Norte.

Vídeos da apresentação idealizada pelos artistas potiguares passaram a circular na internet. Usuários criticaram o teor do conteúdo, considerando o trabalho como impróprio para os "bons costumes". Simulações de sexo e um beijo cênico entre dois personagens, supostamente atribuído ao show, foram o estopim da revolta. Após a repercussão do caso, integrantes do grupo usaram as contas pessoais para defender a obra. Em postagens nas redes sociais, a demissão do secretário foi vista como uma "tentativa de censura".

A cidade localizada na Região Metropolitana reuniu artistas de todo País e do exterior. Segundo o coordenador geral da Convenção, Maurício Rodrigues, 400 convidados participaram das atividades.

Boa parte das atividades e apresentações era restrita aos participantes inscritos. O apoio da Secretaria de Cultura resumiu-se à oferta do prédio de uma escola (destinada ao alojamento e exercícios de treinamento dos participantes) e espaço de montagem de duas tendas de circo. Uma foi armada próximo à unidade educacional e uma segunda num local perto da sede da Secretaria de Cultura do Eusébio. Essa última foi o palco do Erotic Circus Show.

De acordo com a programação do Seminário, o horário da montagem estava agendado para 23h59 de sábado. Um atraso fez com que a apresentação só iniciasse entre 1h e 2h da manhã do domingo. Todas as convenções eram para quem estava participando do evento. "Os espetáculos das 17h, 18h e 19h podiam ser assistidos pelo público em geral. Já os que aconteciam depois das 21h, tinham classificação indicativa", descreve o coordenador Maurício Rodrigues.

No caso específico do Erotic Circus Show, Maurício reforça que por razão da característica da peça, a lona estava fechada e existiu controle de quem estava do lado da tenda. A classificação indicativa foi anunciada para os presentes. Marina Marques também integra o núcleo de organizadores e ressaltou que a lona estava totalmente fechada. "Eu mesma fiquei na porta falando no microfone e não havia nenhuma criança no local às duas horas da manhã", acrescentou em entrevista ao Verso.

HISTÓRICO
A primeira edição do Erotic Circus Show aconteceu em 13 de setembro de 2019. O coletivo envolve 15 participantes e iniciou suas atividades no início de 2019. O trabalho mescla humor e sensualidade, com texto que inclui temas como machismo e homofobia. O projeto também apresenta referências ao show "Zumanity", realizado pelo Cirque du Soleil. Igualmente destinado ao público adulto, o número da mundialmente famosa companhia canadense investe na diversidade e une danças eróticas, acrobacias e jogo cênico picante.

Pelo Instagram, o ator Felipe Paes, integrante do coletivo, argumentou que os comentários negativos aconteceram pela dificuldade de conservadores em não saber diferenciar "arte-erotismo" de "pornografia". A ferramenta foi recurso de defesa para outro membro do grupo. Marcio Sá defendeu que a exoneração do secretário "invalida os benefícios levados pela convenção de circo para o município, surfando nessa onda conservadora dos tempos difíceis e de imposição religiosa".

Maurício Rodrigues batalha na arte da palhaçaria há 15 anos e vê no respeito à diversidade uma das forças sociais da Convenção Brasileira de Malabarismo e Circo. Nas palavras do realizador, é uma ação bastante rica e inclusiva. Maurício acredita que "muito dessa polêmica acontece pelo fato de o circo ainda ser um território machista e destinado exclusivamente ao público hétero".

"A Convenção uniu artistas trans, que precisam aparecer. Três noites, desses sete dias, tiveram programação feminina. A primeira noite trouxe uma mostra de palhaças do Ceará, justamente uma manifestação artística dominada por homens, geralmente brancos. Tivemos também a 'Noite Preta'", argumentou Maurício.

RESPOSTAS
Por parte da gestão municipal, Acilon Gonçalves, até o fechamento desta edição, preferiu o silêncio e a resposta emitida via nota para a imprensa. O nome de um novo secretário não foi apontado. O prefeito promete manter rédeas duras em torno de quaisquer outros eventos a serem realizados futuramente em Eusébio.

"A Secretaria de Cultura teria que ter o domínio pleno de tudo que fosse acontecer neste evento. Por isso, não tenho outra opção, outra saída, que não seja, neste momento, estar exonerando o secretário de Cultura do Município do Eusébio e assumindo, de agora em diante, o controle total e irrestrito, de todos os eventos de qualquer Secretaria que envolva presença de público, como também qualquer utilização de equipamento público para fins públicos, para fins privados", explica a nota.

O caso envolvendo o Erotic Circus Show devassa outro episódio confuso e repleto de atitudes precipitadas de políticos em relação ao tratamento das artes no País. Coincidentemente, o episódio toma proporções significativas poucos dias da demissão de Roberto Alvim, então secretário Especial de Cultura do Governo Federal. A missão, nas palavras de Maurício é explorar as possibilidades do Circo para toda a população. Entregar uma arte democrática e capaz de iluminar figuras da sociedade marginalizadas. De acordo com ele, houve, sim, cuidado com o público presente no evento.

Ao fim de cada edição, uma nova cidade é escolhida para sediar a Convenção Brasileira de Malabarismo e Circo. A próxima parada da iniciativa é Goiânia. O anseio da organização é que as edições futuras não recuem no caráter representativo, inclusivo e, além disso, veja o circo mais do que puro entretenimento.

Fonte: Diário do Nordeste
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