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domingo, 26 de abril de 2020

Afinal, por que é tão difícil cumprir o isolamento social?

Quando as primeiras notícias de que um mercado de víveres em uma província de Wuhan, na China, poderia ser o epicentro de mais uma doença respiratória causada por um vírus, muitos pensaram se tratar de algo que ficaria circunscrito àquela realidade. Depois que o surto ganhou caráter global e assumiu o posto de pandemia, ainda assim, o senso comum era o de que seria apenas mais uma gripe e que, em breve, passaria, a exemplo de outras.

Quatro meses depois, o que se vê é o mundo estarrecido diante da morte, a qual não apenas ceifa vidas do outro lado do globo, mas parece estar à espreita em cada esquina. Enquanto alguns cidadãos - e até dirigentes de nações - insistem em negar a necessidade de evitar as ruas para conter a propagação da doença, outros simplesmente têm dificuldades de ficar em casa, ainda que cientes da situação. Os motivos de tanta insurgência tem a ver com política, economia, mas também com questões mais íntimas, ligadas à forma como encaramos a realidade.

Para Alessandra Xavier, professora do curso de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece), o isolamento social se instalou em muitas cabeças com o mesmo peso de um luto, ainda que este não tivesse sido pela morte de alguém. Seria um lamento pela mudança súbita no rumo dos projetos e estilos de vida cuidadosamente planejados ao longo de anos, pelas cerimônias de casamentos e festas de formaturas frustradas, pelas viagens remarcadas sem data definida, contatos com a família e amigos interrompidos e mesmo contratos de trabalho cancelados.

"O isolamento mexe com uma série de questões emocionais. O sujeito acaba tendo tempo para refletir e isso pode trazer à tona dores que até então estavam contidas por causa do ritmo frenético do cotidiano. Ele está em casa não porque quer, mas por causa de uma situação de tensão e medo. E quase todas as situações de mudança provocam ansiedade, incertezas e inseguranças", enumera. "Neste período de isolamento, as pessoas estão se dando conta do tanto que negligenciaram a saúde mental e não cultivaram um mundo interno onde pudessem se recolher quando as coisas estão difíceis", completa.

A psicóloga cita Elisabeth Kubler-Ross ao falar das fases do luto, como a negação, raiva, barganha, tristeza e aceitação, e faz uma comparação com as perdas causadas pela privação da rotina. "A negação da realidade é um dos fenômenos psicológicos que usamos para nos proteger do sofrimento", aponta.

O psiquiatra Leonardo Damasceno aponta como legado do isolamento social o aumento no número de casos de estresse agudo em virtude da permanência dos pacientes nas suas residências. "Muitos estão com dificuldade para dormir, ansiedade generalizada, choro fácil. Ficar em casa pode ser bom para muitos, mas para outros, o lar é fonte de conflitos e desavenças. O espaço físico pode ser agradável, até luxuoso, mas essas pessoas não conseguem ficar bem porque o espaço interno delas está em situação precária", afirma. "Na pós-pandemia, o trabalho vai ser árduo, porque muitas pessoas vão precisar de ajuda para superar o que essa pandemia deixou como herança. Vamos ter pacientes que não puderam viver os ritos de funerais, por exemplo, já que velórios e enterros foram limitados pelos decretos", destaca.

"É importante também que as pessoas entendam que, neste momento, é perfeitamente normal as pessoas estarem tristes e não conseguirem dar conta das coisas que davam antes. Não conseguir atender às expectativas no mesmo ritmo de antes é saudável, estar sofrendo, também. Bem-vindo à humanidade", ressalta Alessandra Xavier. "Estranho mesmo seria fingir que está tudo bem." 



Idosos relutam em abrir mão da liberdade
Desde que começou a pandemia, a internet tem se enchido de memes que mostram homens e mulheres de cabelos brancos lutando para burlar o isolamento social. As imagens mostram fugas pela porta aberta, puladas de muro e outras situações que podem até divertir, posto que apresentadas como brincadeiras, mas que esconderiam um costume enraizado e criticado por estudiosos da terceira idade: a infantilização, processo que desconsidera escolhas, castra opiniões, retira a autonomia e os exclui de conversas e discussões importantes.

"O envelhecimento atual acontece de forma totalmente diferente do que era há 50 ou 60 anos. Essas pessoas conseguiram dar um guinada radical nas suas vidas. Elas têm um estilo de vida totalmente diferente, conseguem ter uma vida ativa, têm independência para sair de casa, resolver uma coisa e outra na rua, fazer compras, ter atividades artísticas, familiares e espirituais", pontua Paula Brandão, coordenadora do curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

"Não se trata de teimosia. Essa independência foi conquistada por essas pessoas e muitas acham particularmente difícil abrir mão dela e ficarem trancadas numa casa, sem poderem sair para fazer suas compras e caminhadas na praça", afirma. Segundo a pesquisadora, o isolamento social é particularmente difícil para as mulheres com mais de 70 anos, apontada como a primeira geração a conquistar a independência de sair de casa para o mercado de trabalho.

"Também tem outro aspecto a ser considerado, que é o fato de que muitos idosos não têm mais tanta proximidade com os filhos. Como eles podem lidar com as ordens de um filho que não faz parte da sua rotina?", explica.

"A ida do idoso ao mercadinho e à padaria representa bem mais do que o simples cumprimento de tarefas. Lá eles interagem, são reconhecidos, tratados com carinho. Sair de casa acaba sendo uma oportunidade de encontrar afetos." (Flávia Oliveira)

O peso para quem mora na periferia
"Por que boa parte dos moradores das favelas continua indo para as ruas e não respeitando o isolamento social? Quem está em um lugar histórico de privilégio logo levanta respostas racistas e imediatistas para isso." A observação é de Natanel Alves Mota, presidente da Federação de Entidades de Bairros e Favelas de Fortaleza. Natanael cita vários motivos pelos quais as pessoas que moram nas periferias da Cidade passam e que as impelem em direção à rua: habitações precárias, com muitas pessoas sob o mesmo teto e alto índice de crianças e jovens sem opção de lazer.

"Além disso, muitas pessoas nas comunidades têm uma relação bem próxima com vizinhos, sendo muitos deles quase uma extensão da família. Ficar em casa longe deles é um sacrifício, ainda mais porque muitos se ajudam bastante em situações de necessidade. O mesmo costume pode ser percebido nos conjuntos habitacionais, não estou falando só de moradias precárias", completa.

Natanael acredita que muitos ainda não tenham se dado conta da gravidade da situação. "As pessoas estão vendo as notícias da TV, mas parece que elas acham que ainda é uma coisa distante, não acreditam que vai acontecer com elas. Por isso que a associação está se movimentando para passar com carro de som nas ruas e alertar que o problema é real", acrescenta.

"As favelas já são isoladas há tempos. Elas não têm saneamento básico. Fizemos uma pesquisa e vimos que 40% das pessoas na favela não têm acesso a sabonete. 41% não têm acesso permanente à água. Outros 55% não têm acesso a sistema de água e esgoto. Isso é muito grave", destaca Preto Zezé das Quadras, presidente da Central Única das Favelas (Cufa). "As pessoas não sabem o que são termos como assintómatico, comorbidade, curva de contágio. Por isso que estamos com a central da Cufa para tornar a comunicação mais acessível", afirma. 

Preto Zezé lembra que o papel da favela durante a pandemia é o da resistência. "Para que as pessoas fiquem em casa com alguma comida, alguém tem que estar na rua para ser caixa de supermercado, pra ser motorista de aplicativo, e muitos desses serviços são realizados por quem vem das favelas. No final, é a favela que tá pagando essa conta", diz. (Flávia Oliveira)

Fonte: Opovo Online
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